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2 de maio de 2007

Personalidade

"O aroma de decadência é perfume para mim. Como uma antiga amante, o ar poluído me beija a face. Sei que cheguei em casa quando ouço um pneu cantando no asfalto, ou quando vislumbro um raio de néon iluminando o sonho da cidade.Mesmo quando a Fome espreita as fronteiras de meu consciente, mesmo quando cambaleio através da névoa de meu delírio, sei que este é meu lugar. Aqui a mesa de jantar está sempre posta. Aqui a música da vida acompanha cada refeição. Amantes passeiam de mãos dadas. Sinto a Fome crescer dentro de mim. A Besta se contorce. Suas vidas poderiam ser minhas, mas não devo alimentar-me desse casal. Embora não possa ser destruída, a Besta deve ser controlada. Cada noite é uma batalha a ser vencida. Já me alimentei de muitos. Suas faces flutuam à minha frente, alguns me assombram, outras me agradecem. Lábios imploram por prazer e recebem êxtase. Olhos arregalados suplicam por vida, mas encontram apenas alívio. Ante minha Fome seus destinos estão selados. Minha necessidade foi o seu fim. Meu desejo o último cravo em seus caixões.Os que morreram não eram criminosos? Aqueles rostos já não haviam encarado a morte antes que eu os encontrasse? Eles já me conheciam quando nossos caminhos se cruzaram. Morte destrói morte; assim como vida gera vida. Sou a Besta. Um som de violência chega aos meus ouvidos. É uma melodia que canta para minha necessidade e me desperta a Fome. Sigo a música até sua fonte — um cafetão trajando vestes de cores berrantes. Esbofeteia uma mulher maquiada, que cai ao chão. Tira o dinheiro de sua bolsa. — Parasita. — Lentamente aproximo-me dele. — Câncer. — Seus olhos frios encontram os meus. — Doença. — Bebo a sua essência. Pó. Sou a Besta e a Besta devo tornar-me. "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se; para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.

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